Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quinta-feira, 13 de Julho de 2006
Micro-conto: Nova York, 1984
Foi no show dos Motorhead. Uma banda violenta, inglesa, mal encarada. O líder, Lemmy exibia tatuagens, anos de prisão, dentes estragados e cabelo oleoso. Uma máquina.

E foi no Ritz. Um clube com decoração de teatro romântico novecentista, sem cadeiras na plateia, com três bares apinhados, e onde tocava um pouco de tudo — de Devo a James Brown, digamos.


Era uma noite eclética. Misteriosamente, os Motorhead atraiam todas as tribos de preto. Hells Angels, cervejeiros e bárbaros. Punks de corrente no nariz e unhas roxas. Urbanos depressivos, muito brancos na pele e profundos no olhar. E até clássicos como Ugo, de casaco preto pelo joelho, calça afunilada e chapéu de aba curta, vagamente Frank Sinatra.


Ugo estava embalado com o calor do som e a vibração iúrdica da malta, quando virou a cabeça e deu com ela. Alta — todas as mulheres acima da nossa altura são altas — vestidinho preto de alças, cabelo à garçone infinitamente escuro e olhos melancólicos. E ela também deu com ele, via-se.


Olhares, piscadelas, boquinhas.


— Quer tomar alguma coisa?


Uma entrada fraca, convenhamos. Mas o som contínuo, inexorável e perfurante dos Motorhead não permitia conversas muito subtis. Tinha de ser tipo “me Tarzan, you Jane” e muita gestualização.


Mas ela queria tomar, e depois de alguns minutos de empurrões no bar, Ugo voltou com dois copos de plástico e uma determinação feroz de explorar o desconhecido. O perfume dela prometia acção, e o gosto, ali onde o frio do tecido dá lugar ao pêssego da pele, tinha um sabor acre, quase salgado.


Entre os suspiros no pescoço e o ataque mais directo ao baton vermelhão, Ugo fixou os olhos nos dela, a medir o atrevimento, e deparou-se com o suor que perlava na testa da menina.


Ugo nunca tinha pensado nisso, não sabia se era ciência exacta ou tinha bases psicológicas, mas naquele momento ficou absolutamente certo que só os homens suam na testa.


De repente, numa procura rápida de indícios — o contorno dos pulsos, a pele no pescoço, sabe-se lá o que procurar quando a decisão tem de ser em tempo real — rapidamente Ugo ficou certo que tinha um homem pela frente.


Enquanto o Motorhead aquecia a assistência, Ugo tentava elegantemente, sem embaraços, dar meia volta e mudar de bairro.


Conseguiu, mas deu-lhe um trabalhão.


E até hoje, após mais de vinte anos noturnos, ainda não descobriu se realmente só os homens suam na testa.


- Julho de 2006 (dedicado ao Ugo Santos)


publicado por Perplexo às 09:59
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