Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Domingo, 26 de Novembro de 2006
Monólogo da espera. Peça em 1 acto. E sem tempo.

A piiique. A pique e ver ti gi no sa men te. Assim acabaram. Ainda tentaram aguentar-se, prender-se a qualquer detalhe, mas foi vão.


Presos pelas mãos, ela, apertando com muita força a dele, ele, agarrando bem, para que a dela não escapasse, zás! Saltaram.Mergulharam no abismo, na indecifrável escuridão do abismo que se lhes abria aos pés.


A força da deslocação fazia-os vibrar de prazer, enlouquecidos de gozo pelo desmaio no desconhecido. O que os esperava lá em baixo? Não sabiam, nunca tinham sabido, nunca saberiam sequer, e, agora, nem importava - nem de tal coisa se lembrariam!


Uauu! Que bom este salto no escuro! Quando é qu'isto acaba? Melhor, quanto tempo ainda vai continuar? Mas... aqui há tempo? O tempo existe mesmo? Ou isto é puro espaço e nem sabemos definir "isto"? Uauu, que giro qu'isto é, (ou pode ser?)... Nem tempo, nem espaço...


E Mariana girava, girava, deslumbrada com a própria leveza do corpo, enquanto caía cada vez mais rápido. A sua mão já se soltara da mão de Tom. E Tom? Onde está Tom? Tom? Onde estás, Tom? - Virava a cabeça, aflita, sentindo uma  força invisível que lhe puxava os cabelos todos todos para cima, como se usasse uma peruca eriçada de laca spray.  Tom! - Gritou. Tom? Já caíste? Já chegaste? Chegaste a algum lado?


Oh, que bommm qu'isto é, Tom! Nunca mais, nunca mais vai acabar? Não tem fim? Mas... como pode ser? Nós não estamos preparados para o infinito! Nem saberíamos o qu' isso é! Tom, explica-me como é. Responde, Tom!


Não podes ter-te atrasado, Tom. Caímos os dois ao mesmo tempo e já não sei de ti. Não te tenho na minha mão, não te sinto. Não posso já beijar-te... Tenho saudades de ti, Tom. Estou cansada de cair...


Mas isto nunca mais acaba??? 'Tou aqui 'tou a perder a paciência! Não me ouves, Tom? Por que não respondes? Isto era só uma brincadeira. E, agora, tenho medo, Tom... Toom? Tenho medo, ouviste? Não me queres vir buscar? Onde te meteste? Este funil nunca mais acaba? O que é que me vai acontecer? E a ti, o que é que te aconteceu? O que é que nos aconteceu? Não percebo, Tom, e não gosto de não perceber...já sabes que sou uma chata, que tenho de saber os porquês de tudo, de perceber tudo. Desapareceste no ar e eu não sei p'ra onde vou... já não posso voltar atrás. Aqui só há uma direcção, sempre p'ra baixo, cada vez mais p'ra baixo. Alguma coisa me puxa cada vez mais p'ra baixo e eu não sei p'ra onde vou. Ninguém sabe afinal...


Tom? Não achas isto muito estúpido? Ainda te lembras donde vieste? Sabes donde vieste? Não sabes, pois não? Ninguém sabe! E p'ra onde vamos, também não sabemos... Só é curtido enquanto vamos. Por isso é que devíamos viver sempre gerundiando:  amando, vivendo, indo, vamos indo... Sem saber porquê, nem para onde.


Que triste, Tom. O único que podemos saber é o como. E lá nos vamos enganando, fingindo que estamos bem, inventando deuses e eternidades, infinitos à medida das nossas mãos... A propósito, Tom, onde está a tua mão? Dá-me a tua mão, Tom. Já me falta a tua mão. Faltas-me tu nesta vertigem.  


Temos de cair a dois, Tom; escapaste-me, não sei porquê, mas acredito que foi só por acaso. Eu espero, eu acredito, eu quero acreditar que foi o acaso que nos separou, mesmo não sabendo se aqui também o acaso existe. Ou, se calhar, também aqui não passa de uma palavra,de um invento mais que o Homem inventou para se defender do Nada  a que está condenado...


Volta, Tom. Onde quer que estejas caindo, vem caindo, mas vem comigo.


Tom, até que enfim! Estava a ficar farta de esperar. Caímos na eternidade. Antes, tínhamos o Tempo, mas não soubemos aproveitá-lo, Tom...


Ninguém sabe.


Miriam 


 


 


 



publicado por Perplexo às 21:40
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006
Jantar do dia 29
Então, vamos ver-nos todos? Quem está a pensar que vai ao jantar, por favor mande qualquer coisa - SMS, email ou telefonema - para a Susana ou para o José Couto Nogueira, para que possamos calcular o número de pessoas. O jantar é às 20h30 do dia 29 na cafetaria do sétimo andar. Traje normal, nem jogging suit nem vestido comprido, atitude descontraída, mente limpa, boa disposição e apetite qb... Não serão lidos poemas nem se farão discursos.


publicado por Perplexo às 10:53
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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006
Harakiri

 Recado de Eros, quase em forma de haikú, para um amigo que não gostava de poesia:


 


Um dia, partiremos


de nós para nós.


e então será mais perto 


a minha viagem dentro de ti.


 


Miriam



publicado por Perplexo às 16:31
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Domingo, 19 de Novembro de 2006
s/t


 


 


 


 


lisboa abaixo. lisboa acima. a cidade faz-se de degraus. na tarde quente que se arrasta.


 


entre portas esburacadas a adivinhar segredos. e cartazes de concertos que já foram.


 


da esplanada zen vê-se o lado de lá. traz de volta os passeios à beira-rio. mais os telhados.


 


e o cheirinho a santos populares que já não tardam. não há andorinhas nos beirais. nem melros mascarados de corvos. nem sequer um pombo furtivo.


 


 


o chapéu-de-sol dá guarida a uma flor a fingir. assim à contra-luz quase parece condenada a murchar.


 


a cidade ilude. nada mais é que um postal ilustrado impresso em série.

 



publicado por Perplexo às 13:05
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Sábado, 18 de Novembro de 2006
O Seixo e a Sandália

Noite de Outono. 23 graus no céu a rebentar de azul. Noite de Lisboa. Em Lisboa, noites de Verão e de Outono não são noites de dormir. As gentes passeiam pelo Chiado, apinhado àquela hora. Ouvem-se as congas na Rua Garret. A florista espreita à porta. Nas ruas misturam-se vozes em espanhol, alemão, inglês. Português. Passeiam-se casais de mão dada, bebe-se um café com o Pessoa, furioso desta condenação...


"Dê-me um beijo!". Olhou-o, entre surpresa e divertida com o tom imperativo. Deixou-se ficar imóvel, sem pensar nem responder. "Vá, dê-me um beijo, então?". Ela beijou-o, na face estendida. Uma vez em cada lado. Ele saíu do carro, atirando com a porta. Nem sequer olhou para trás.


Arrancou, direita a casa. O que é que esperavas, meu palerma? Convencido! São todos uns convencidos...um jantarito ou um almoço a dois e zás! 'tás caídinha! Pois fica sabendo, meu menino, que não, nem por ti, nem por outro, passo muito bem sem vocês, pois claro! E convém que apareça, de vez em quando, uma que vos contrarie, meninos. Estão todos muito mal habituadinhos, olá, se estão. Sete mulheres e meia para cada um, não é? Menos na Austrália, claro. Lá, somos rainhas a braços com a dificuldade da escolha. Pois o melhor é imitar-vos: nada de escolhas, nada de atanços, "há mar e mar, há ir e voltar", não é? pois então, meninas, vamos a isto, em cada curva pode haver melhor. E se lá podemos ser as stars do bairro, emigremos. Pode ser que o Mia Couto tenha razão, se um homem é uma raça, veremos que raça é aquela, que esta já deu o que podia, no tempo dos brasis. Lá, até a sacripanta da Agustina se safava com carnet de baile, debutante nas lides amorosas...


E tu, meu tarzan ibérico, espera sentadinho, à frente da TV, como fazem todos os da tua cepa. Ou pensas que eu não sei, só porque não sou casada? eu bem oiço as outras, as amigas e as colegas! O que vocês querem é TV  e jantar na mesa. Depois, o orgasmo do ano é regalado se o vosso clube ganha, mas o pior é que perde sempre e aí é que são elas, pois são! mais uma oportunidade perdida de felicidade a dois! E a mulher à espera,  que, ao menos dessa vez, vale a pena, não há cansaço nem sono que vos ataque (a nós são as dores de cabeça, enfim, cada género com sua cruz...). Ah, mas se o jogo é mau, nem a boazona do 3º esquerdo vos arregala a pupila do olhinho já mortiço, seus machões de dois vinténs...Doía-lhe o pé. 


O estoiro foi maior do que a cabeçada no vidro. Guinou, sentiu o carro borregar, afocinhando à esquerda, partida a direcção.  Sangrava da testa, doíam-lhe os joelhos, doía-lhe  o pé. Em volta acumulavam-se os mirones. A lua ria-se dela descaradamente, através do vidro estilhaçado.Olhando em volta, sentiu uma irreprimível vontade de chorar.


As noites de Outono, em Lisboa, não são noites para dormir só...



publicado por Perplexo às 22:46
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006
Odji d'Mar

- Achas que dentro de vinte anos 'inda estamos assim?


- Acho! - A resposta viera rápida.


Mae colou-lhe um beijo à nuca e afundou o olhar no rebocador, enquanto se alapava ao corpo dele.


De dentro do mar, a proa do velho barco observava-os com altivez.Parecia que tinha olhos. Há três dias que lhes seguia os movimentos, como um cão deitado vigiaria o dono. Enconchando-se na baía, um véu mar-céu brumeava o horizonte. O morro era agora um farto seio rendilhado, rasgando a névoa fina.


Não tivera nunca uma mulher na sua vida - pensou DC, rosto enterrado na areia. Mas, afinal, o que eram todas as outras que lhe atravessavam a vida? O que tinham sido? Perdera já a conta a uma míriade de encontros-desencontros que llhe pontilhavam o caminho. Retinha alguns nomes. Enganava-se. Trocava-os quando tentava emoldurá-los num rosto, ou num corpo que a memória teimava em reter.


Tempestades de desejo, eram assim mesmo: flashes de maior ou menor alcance, disparados a intervalos irregulares do sonho. Num deles encontrara a matriz pedida-perdida. Fizeram greves, fizeram juras. Fizeram amor e fizeram filhos. Fizeram milhares de quilómetros - em viagem, em sonho, em conversa. Em casa.


Depois, - lembrava-se agora que há sempre um depois - depois, o maior encontro, o mais longo desencontro.


- Queres ir comigo para o Brasil?


- Para o Brasil, ou ao Brasil?


- Dentro de dois anos, saio daqui. Estou farto disto tudo!


- Há meia hora atrás, o Brasil era os Estados Unidos...- respondeu, irónica.


- Brasil ou Estados Unidos, não interessa.Queres ir, ou não?


- Para partir, conta sempre comigo. Estou sempre pronta p'ra partir. O destino não importa. O que interessa mesmo é partir... - nisso, era bem portuguesa. Não podia negá-lo,apesar do nome que lhe coube na rifa. 


                                                         * * *


Pelos dez anos de idade, lera um livro que a tinha marcado, "O Apelo da Selva". Cravando o olhar no azul mais distante, perguntava-se se existiria um apelo do mar...


- Agora, apetecia-me ter um barquito, meter-me nele e ir por aí, água dentro.Sem destino certo, a cortar este véu. E quando chegasse ao rebocador, virava-me para terra, para vê-la desde esse além.


Talvez que, assim, entendesse o seu país, pensou.


Olhando a água, sentia-se flutuar. Apetecia-lhe flutuar. Desejava flutuá-la.Como uma gaivota.


E levantou vôo. DC não voltou a vê-la.


                                                           * * *


Vogava com as ondas, pernas estendidas, olhos fechados. Da praia chegava-lhe o chilreio dos pássaros, os gritos dos miúdos e o gargarejo da água, por entre o cascalho. Aterrou-lhe uma pedra-lume nos braços abertos em cruz. Abriu os olhos. Embarcou no abismo azul das íris que a fitavam.


 


Miriam


 


 



publicado por Perplexo às 22:33
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Domingo, 12 de Novembro de 2006
Les Uns et les Autres. II - A Voz.

Chegaram sem mesa marcada. O burburinho da sala contradizia a promessa do nome e do espaço,  com decoração hesitante entre o minimalismo ocidental e o despojamento do Oriente. Um empregado apressou-se a arrumá-los numa mesa central. Os empregados,europeus,o ar, pastoso, a sala vermelhusca e a luz difusa,tornaram-se irrelevantes.


Ela descartou-se da chatice de escolher a carta. Pouco lhe interessava a comida. Fora por ele, para ouvi-lo, que aceitara o convite, não para comer. Era-lhe indiferente o que viesse. Considerava-se uma boa "gourmet" - tinha o prazer da mesa, da tertúlia à mesa, das refeições arrastadas pela tarde ou pela noite, em amena cavaqueira com os amigos ou a família, dos "eatings and drinkings" expressão recorrente de noitadas em gargalhada geral. Mas hoje era diferente. Tinha todos os sentidos concentrados num único objectivo. Conversaram, falaram de tudo e de pequenos  nadas, saltaram de tema em tema sem se comprometerem muito com ideias, nem ideologias, e menos ainda ideais. Passaram em revista o passado, deram uma olhadela ao presente e marimbaram-se para o futuro (isso o que é? sempre um caminho para a morte, percorrido dia-a-dia, feito do presente, logo, p'ra  quê falar do que está dado à partida?). Ele, cheio de vícios da  pósmodernidade, a actualidade, o abismo internacional, ela, aparentando frieza, uma falsa ataraxia, nalgumas questões mais entusiasmada - as historietas dele e a História que ia entrelaçando ao longo da noite. E riram um do outro, um com o outro,dos outros. 


Beberam como velhos compinchas, "compagnons de route", sem moto nem interail partilhado, cúmplices de há muito... Ele punha-se todo em tudo o que dizia. Falava como ria, como via o mundo, as pessoas, as coisas. Com emoção, com paixão. Expunha-se. Inquieto, irrequieto e tempestuoso - o que tinha por diante era um vulcão. A lava que lhe corria dentro serenava por breves instantes, para logo se agitar de novo. "Talvez por isso veste sempre escuro". Somos a cor que escolhemos? Eu escolho-me em branco. E em azul. Luz e água, a luz da água. Ele, o negro, o cinza lavar, a terra. Prometida, ou ainda não. A escolha define? Definimo-nos na escolha? (a pensar mais tarde, que agora estou a pairar, a voz dele leva-me a rotas desconhecidas, à descorporização, à ausência de autoconsciência. Agora vou por onde me leva a voz, sou a voz que oiço, não estou aqui, não sou eu, mas uns acordes sincopados, o D. João III está a distrair a minha concentração, que chato, e eu não quero sair da espiral de abstracção que me faz ar, não tenho peso nem massa, sou uma voz que não é a minha, mas não me importa,  é assim que me quero, gosto mais desta).


Regressou.Bem modulada, articulada, a voz saía-lhe das entranhas. Invulgar, incomum, regalo da natureza, prendia-a mais do que a própria palavra, do que o discurso dele. Este tornara-se secundário enquanto ia registando as chispas, a luz, o contraste do olhar radiante, das rápidas explosões de alegria, com as trevas do sedimento interior. Insultou-se. "Bruxa! Que olhar era este o dela, que lhe devolvia a alma e não lhe exibia a matéria? Que olhos tenho eu, que me revelam o oculto e me distraem do óbvio?" Se lhe perguntassem como é ele, não saberia descrevê-lo, a não ser pela luz e pelo negrume. E pela voz irrepetível.


                                                                  * * * * * *


Saíram quando ele já  estava de novo agitado, impaciente. Fora, dividiram a paixão xenófoba pelo clima, inspiraram a noite cálida, caminharam sinuosamente pela noite urbana, ele, contando-lhe a História da cidade. Acompanharam-se em direcção ao carro que os esperava. Despediram-se com dois beijos rápidos, ele, roçando-lhe a linha da cintura com as manápulas calorosas, ela, sorrindo, agradecida. Entrou no carro.A cratera fechou-se. Ele virou costas e encaminhou-se para casa.


Tinham ludibriado todos os "clichés".


Miriam  


                                                              


 


 



publicado por Perplexo às 17:00
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006
O marido, a sogra e as cunhadas

Carta de desamor de Ana Bela Sousa Santos


Querida Amiga Paula!


Como estás? Espero que bem!! Há muito tempo que não te escrevo, porque, ultimamente não tenho andado bem. Sabes, eu continuo com aqueles problemas do meu marido e da minha sogra. Lembras-te? Então vou te contar a última cena que aconteceu. Foi no passado mês de Agosto, quando fui visitar a família do meu marido (como sabes, vou sempre muito triste e deprimida, não consigo disfarçar, por mais que tente).


Quando lá cheguei, cumprimentei as pessoas que estavam presentes, e, fui-me embora para casa da cunhada do meu marido, que vive mesmo ao lado da minha sogra. Conversámos e passeámos e quando chegou a hora do jantar retirei-me. Vou a entrar na casa da minha sogra, como bem educada que sou, e como ainda não tinha cumprimentado algumas pessoas que lá estavam, disse: “boa noite”.


Estavam as ricas irmãzinhas do meu marido com caras de “chibas” e uma delas disse: são horas de chegar? Ai! O que aquela gaja me disse!! Eu respondi: Que eu saiba não tenho que te dar satisfações da minha vida, porque à muito tempo que não vivo com os meus pais e mais, vais falar assim, para o teu filho, marido e vai para o raio que te partam! Virei-lhe as costas. Fui sentar-me à mesa, mas, como queriam conversa, começou tudo a discutir comigo, a insultar-me. Que fui muito esperta; só quis agarrar o meu marido, porque, ganhava muito dinheiro... eu pensei, o que é isto? Mas, eu estou aonde? Eu não acredito no que está acontecer! Se eu lhes responder à letra, não me ouvem porque eu sou sozinha e elas são mais, em segundos pensei, não entro nessa. Aquilo parecia uma autêntica peixeirada. Eu não queria chegar aquele nível... é melhor ficar calada, a minha filha chorava, virei-me para o meu marido e disse: vamos imediatamente para Lisboa ou eu apanho um táxi.


Durante a viagem não nos olhamos, nem nos falámos. Eu sentia-me humilhada... Quando cheguei a casa (já em Lisboa) eu disse ao meu marido: não me defendeste! O que eu represento para ti? Nada! Então vais ouvi-las. E passei-me. Disse-lhe tudo o que estava atravessado.


A tua irmã não tem moral de dizer o que quer que seja, sabes porquê? Porque ela casou e nunca passou um fim de semana com o marido; ela pariu e deixou o homem em Coimbra e foi para ao pé da mãe, não foi para a sogra. Agora fez a casa dela ao lado da mãe e não ao lado da sogra, porquê? Só falta pedir autorização à mãe quando quiser dar uma foda. Ela discutiu comigo e nem se quer estava na casa dela. Mas estamos aonde? Ela pensa que eu tenho medo dela, uma meia leca e ignorante que nem falar sabe. Mas...eu chego para ela...


Continuo a não compreender tal atitude porque eu nunca me meti na vida dela, e, tu sabes bem isso! Além disso as tuas irmãs correm para junto da tua mãe e não das sogras delas, tal como eu corro para a minha. Mas, porquê? Estão com inveja! A partir de hoje não ponho as patas em casa da tua família, nem natal, nem anos, já que eu não presto... assunto resolvido.


Paula, só fiquei com pena de não a estrangular e de não lhe ter apertado o papo, só não o fiz, porque, estava com a minha filha e se lhe batesse eu iria perder a razão. Desde então, deixei de ter tantas angustias e sinto-me muito mais feliz....


Um beijo Da tua amiga Bel



publicado por Perplexo às 15:25
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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006
Jantar de confraternização

Conforme proposto várias vezes e sugerido por muita gente, vai decorrer um jantar de confraternização, saudosismo e mexericos com os alunos de todos os cursos de escrita criativa. O jantar está marcado para quarta-feira, dia 29 de Novembro, às 20h00, na cafetaria do El Corte Inglês, no 6º andar.


A Suzana Santos ofereceu-se para tomar nota das inscrições e fazer a reserva; cada pessoa vai por sua conta e ainda não se decidiu (e provavelmente não se decidirá) se haverá uma ementa única (com variantes para as várias sensibilidades, evidentemente) e se implesmente cada um pede o que lhe apetecer.


Quem quiser ir, basta que envie um mail para a Suzana, susana.santos@elcorteingles.pt, ou lhe telefone para 96 563 5110. A data limite para as inscrições é 24 de Novembro.


Gostava muito de os rever a todos, e de saber o que andam a tramar (literariamente, claro).


publicado por Perplexo às 23:54
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Sábado, 4 de Novembro de 2006
Abismo

Carta de desamor de Ricardo Henriques


Existe um abismo entre nós. Esta conclusão radiante não me permite esboçar o mínimo orgulho porque infelizmente sei que a tiraste muito antes de mim. A boa notícia é que podes continuar a vangloriar-te dessa tua capacidade tão inata como irritante para o pensamento racional. A má notícia é que a minha natureza impulsiva conseguiu pôr-me finalmente um passo à tua frente. Considera esta carta a tua ablação cirúrgica, a trepanação que a nossa relação exigia. Sim, estou a extrair-te de forma terminal da minha vida. Olhando para trás é tudo tão claro como estuque tapa buracos. Eu gosto de arriscar, tu pensas sempre nos prós e contras, nos contras e prós. Eu imagino constantemente tudo aquilo que poderíamos fazer juntos, tu contentas-te em repetir os mesmo gestos de todos os dias. Tu és de esquerda, eu sou de direita. Eu penso em imagens, tu respondes-me com centopeias de palavras. Eu perco-me, tu encontras-te. Curiosamente sou eu, o não linear, o subjectivo, o emocional que consegue ter a capacidade de compor os caracteres do adeus derradeiro. Quem é que é dominante agora? Se calhar apanhei essa tua doença chamada “lógica” ou talvez as mais recentes descobertas da neurociência sobre a inteligência emocional estejam certas: sem emoções ninguém consegue ser objectivo. Parece que os nosso encontros na zona pré-frontal deixaram sequelas, especialmente para o teu lado. Um tal de António Damásio descobriu que a existência de traumas nesta área levam a que se fique preso a estratégias que não funcionam. É este o teu diagnóstico: sem mim não és ninguém. Já sei o que é que vais dizer, lá estás tu com ideias e a dar a volta à lógica das coisas, não seria melhor fazeres um TAC? Não, não é uma ressonância que nos vai salvar, nós somos a personificação da dissonância. O nosso problema é estruturante, não podes negá-lo. Vais ver que o facto de sermos os dois insensíveis à dor vai ajudar no processo. E claro que a tua “competência comunicativa” vai prevalecer na tua visão objectiva dos factos. Retiro-te oficialmente o título de cara-metade e também de meu braço direito, quanto a mim, abstenho-me de controlar todo o teu lado esquerdo. Como é que vamos conseguir viver? O que será da tua “coordenação da motricidade”? Recorre à inteligência artificial se for preciso, daqui para a frente os teus movimentos são isso mesmo: teus. Desde que comecei a fantasiar com esta lobotomia já sinto a brisa de uma oxigenação que de certeza me vai abrir muitas portas da percepção. Existe um claro abismo entre nós, mas tu, na tua infinita e contorcida sabedoria chamar-lhe-ias uma fissura inter-hemisférica. Sabes o que te digo? Faz um brainstorm à porta fechada e mete a tua sabedoria no cerebelo.



publicado por Perplexo às 09:41
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