Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
"Caos Calmo", de Sandro Veronesi, por David leandro

 Sinto dificuldade num exercício de ‘crítica’ respeitante ao último romance que li. Acabei de o ler há três ou quatro semanas e, ainda, retenho uma sensação dúbia: não percebo se gostei ou não. Melhor, não consigo estabelecer, claramente, a fronteira que separa o que de alguma forma me sensibilizou, daquilo que nada me disse. E quando falo no que me sensibilizou não me estou a referir em exclusivo ao que me agradou mas, também, ao que me desagradou. Numa leitura, como em quase tudo na vida, o mais importante é que ela não nos seja indiferente.

Caos Calmo de Sandro Veronesi (Ed. ASA), propõe a simultaneidade de duas ocorrências, nos extremos opostos da linha da vida, uma morte e uma fuga à morte (que aqui pode ser vista como um nascer de novo, um re-nascimento), como a charneira para uma, não sei se viragem mas, decididamente, grande reflexão acerca dos valores fundamentais. De facto, Pietro Paladini, o personagem central do romance, vê-se confrontado com a ocorrência da morte de sua mulher em sua casa ao mesmo tempo que ele salva de morrer afogada, na praia, uma banhista desconhecida. Apesar de ser o primeiro destes factos que assume ser a origem do seu comportamento posterior, a verdade é que o segundo está, sempre, presente.

Aceito que cada um dos factos é, por si só, suficientemente forte e determinante para desencadear uma reflexão sobre a existência. Que se coloquem, com toda a acuidade, as interrogações: como? porquê? para quê?. Os limites colocam-nos, sempre, perante a superficialidade.

Não percebo, porém, que os dois factos mais ligados ao Homem, o nascimento e a morte, que são parte da sua condição, sejam os detonadores para um tipo de questionamento pessoal que deve acompanhar o indivíduo enquanto ser pensante e, como tal, sempre preocupado com a sua relação com o ‘outro’ seja um indivíduo, seja o meio que o rodeia.

A radical mudança em Pietro Paladini ter arrastado familiares, amigos e até desconhecidos para uma nova perspectiva de vida, parece-me uma ideia interessante já que desmistifica um pouco o preconceito de que uma atitude isolada está condenada ao fracasso no que a comportamentos sociais diz respeito.

Parece-me requentada e perigosa se bem que, religiosamente, atraente a ideia de que a redenção só se faz sobre a dor, sobre o drama pessoal.

Sendo estas algumas das questões interessantes que Caos Calmo me coloca, considero que no outro prato estão demasiadas páginas com descrições fúteis e de reduzido interesse, tornando-se a sua leitura num penoso exercício de persistência. Talvez a querer dizer que a vida é um misto de interesses e desinteresses. Ou talvez seja, apenas, o caso mais prosaico de um escritor que não é capaz de manter, durante quase quatrocentas páginas, um nível alto de motivação para os leitores. O que acho legítimo.

 

David Leandro

Maio2009



publicado por Perplexo às 12:24
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