Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quarta-feira, 26 de Julho de 2006
uma piscina azul Hocney

 


Uma piscina azul Hocney
 ( texto inspirado pela fotografia “A piscina” de Alexandra Gil ) 
Por Nuno Ribeiro

 


 Esta poderia ser uma piscina azul Hocney. Com a diferença de que no meu imaginário não há litle boys, only litle girls.Vem-me à memória aquela música inenarrável do Maurice Chevalier “Thank even for litle girls”. Ou a outra, pelos menos tão atroz do Júlio Iglésias, “De niña a mujer”… Cruzes!Na minha vida sempre houve litle girls, se bem que já na idade do consentimento. E ouve uma em especial.Conheço-a desde a pós-puberdade, mulherou-se à minha frente. Sempre houve um certo atrito entre nós, uma crispação que mascarava um desejo. (Agora entra o Paulo Gonzo a cantar os “Jardins Proibidos”.)Soube sempre que o seu desdém para comigo era uma forma de se dar a mim. E como podem ser cruéis os eleitos pela deusa juventude.Durante o resto do ano, a coisa passava-se bem. O pior era o Verão. Torturava-me com a sua nudez autorizada pelo relaxar dos costumes, pavoneando-se à minha frente com um bikini ausente, cujos despojos faziam as vezes de um mero tapa sexo. Atrás, o fio dental fazia aquilo que eu lhe queria fazer, enfiando-se entre as suas nádegas cobrindo o seu sexo.Deitada de costas, à beira da piscina simulava assim uma nudez inclemente. E ria-se, vendo o efeito por demais evidente que provocava em mim.O meu desejo por ela alimentava-se apenas da sua juventude indecente. Bem vistas as coisas, até nem era nada de mais. Peito talvez 34, nem alta nem baixa. E já com umas assassinas estrias de celulite. Nada de mais.Mas como eu a elogiava! Uma erecção é o maior elogio que um homem pode fazer a uma mulher…Sou um pobre lobo de Ray-Ban, uivando nos afrontamentos dos meus 40 e tal anos anafados. Sou um Fausto a quem lateja, ainda, o falo sequioso pela sua Margarida.Dizia o Goethe que a juventude é uma bebedeira sem vinho. E eu embebedo-me com ninas no alvor dos seus vinte anos. Vinte anos e a flor do meu desejo, da minha gula, entre os dentes.A carne rija, a pele esticada, a ligeireza etérea de quem se preocupa com quase nada. Talvez só em combinar o bikini com a saída de praia.Troquei o Volvo por um Porsche, à cata de uma vulva nova. A dela ou a de outra qualquer nina-troféu.Apetece-me prova-la. “Carne fresca para Drácula”, sempre adorei este título.Até que um dia, seja por força das constelações, tédio, caridade ou o cansaço desde jogo de rata e gato, a coisa aconteceu. Provei-a, devorando-a com a sofreguidão de um guloso numa loja de doces. Um perfeito alarve.Foi uma decepção. Lembrei-me daquela velha anedota segundo a qual a diferença entre o cadáver de uma mulher e uma inglesa na cama, é que o cadáver é menos frio.Foi-se o sonho que sonhei, ficou o vinho seco e amargo da realidade. Nunca mais quero concretizar um sonho. Nunca mais.
 

 Estou deitada, semi-nua à beira da piscina. Esse azul tão turquesa e transparente poderia ser roubado a um quadro de Hocney, sem os rapazitos, claro.Gostei sempre de homens mais velhos, nunca com menos de 40 anos. E nunca tive dificuldade em despertar a gula da brigada do sal e pimenta. Mas houve um em especial.Conheci-o, já não sei por meio de quem, aos 16 anos. Todos pessoas do mesmo meio. Férias na mesma praia.Desde o primeiro momento senti o seu desejo por mim. E claro que com a crueldade dos meus 16 anos não resisti a tortura-lo, à maneira de quem arranca a cauda à lagartixa.Durante anos, brinquei com ele um jogo de sub entendidos. Tocata e fuga, como se diz na ciência da composição musical.Fi-lo trocar o Volvo por um Porsche apenas com a insinuação de que gostaria de ser comida dentro de um. Tolinho, tolinho!O melhor era o Verão, servindo-me da ausência de roupa para o fazer ficar visivelmente excitado. E como era grande o seu embaraço com as suas erecções.Deitava-me de costas, fingindo dormitar à beira da piscina. Tocava-me. No peito, no rabo, a mão dentro do fio dental. Depois olhava para ele e ria-me.Um dia aconteceu. Fiz-lhe a vontade. Deixei que me possui-se. E ele, simplesmente bloqueou. Despachou o serviço e foi-se. Mais valia não ter acontecido porque o sonho desfeito pela realidade não é um reflexo num olho dourado.


publicado por Perplexo às 18:10
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