Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quinta-feira, 27 de Julho de 2006
uma piscina azul hockney - a retaliação

 Eis a continuação possível do texto anterior...  (o autor que se acuse) (by alexandra gil)


 


- tem horas que me diga? é ela. reconheço este tom de voz sussurrado. esta mesma pergunta que há tanto tempo ela me fez, junto à piscina, quando ainda nos tratávamos por você. nunca o esqueci. ela está aqui. a minha quase-lolita, a cabra que me rogou uma praga, me destruiu a vida na maldita noite de setembro na casa dos barcos. aquele encontro adiado que servira a tantas sessões de masturbanço foi a minha ruína. o fim da minha apregoada masculinidade. podia ter sido mais uma queca, mas não. foi a última. agora sempre que engato uma gaja, não consigo evitar a imagem dela, inerte e silenciosa, enquanto eu me vinha. três vezes, se bem me lembro. ela ali deitada, de pernas abertas, com ar de indiferença perante a minha paixão titânica. é essa imagem que me assombra desde então. e nada consegue evitar as crises de impotência. tentei o viagra, psicoterapia, mezinhas de ervanária e de bruxaria, putas finas e das outras. e também homens. cheguei a pensar que me tinha passado para o outro lado. mas não. estou condenado a dar uso aos meus dotes de mãos e língua e a muita lábia para convencer as parceiras de que o que se não passa depois é resultado do stress da profissão. agora, passados dez anos, tenho a chance de lhe atirar tudo à cara, de a culpar por tal maldição. – desculpe, mas tem horas ou não? tiro os olhos do jornal. a freira à minha frente, sorri. – valha-me deus, como estás acabado…
  

**********************************************


-tem horas que me diga? o comboio deve estar mesmo a partir. e o homem continua a ler o jornal, sem responder. deus me perdoe, mas faz-me lembrar o quarentão amigo dos meus pais que engatei, pouco antes de me entregar ao senhor. foi na piscina num dia daqueles quentes de agosto. achava-lhe piada, como achava a todos os outros amigos da família, que lá iam passar os domingos. também ele não tirou os olhos do jornal. depois não conseguia era tirar os olhos de mim. uma noite, alguns verões depois e enquanto todos discutiam a situação política mundial, arrastei-o para a casa dos barcos. mais por curiosidade que por tesão. não era o primeiro, mas foi o último. não senti nada. ele mordia-me toda, besuntava-me de saliva com sabor a tabaco e whisky. e eu não sentia nada... o porco também não se veio. mas eu estive à altura das divas porno. deus me perdoe. na tarde seguinte fiquei noiva de um rapaz de boas famílias com quem deveria ter casado no inverno, como faziam as meninas bem comportadas. mas a noite da casa dos barcos não me saía da cabeça, sobretudo quando a minha mãe falava dos deveres matrimoniais. não cheguei a casar, não mais aticei os amigos da família. não fora talhada para aquilo. não gostava de sexo. acabei por entrar para um convento, onde abro apenas o coração.– desculpe, mas tem horas ou não? o homem tira os olhos do jornal e fixa-os nos meus, sem mostrar surpresa. - Valha-me deus, como estás acabado – sorrio.   

a.gil



publicado por Perplexo às 00:42
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