Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quinta-feira, 27 de Julho de 2006
Disneyland 1 - Louvre 0

Ah que saudades do tempo em que brincar era apenas isso… brincar, mais nada. Brincar era descobrir coisas à toa, era perceber que há coisas que fazem barulho se lhe tocarmos, que há outras que nos magoam e nos fazem chorar. Brincar sem propósito, sem pedagogia implícita, sem regras de manuais.

Brincar com os filhos hoje em dia parece o “Dia de Treino” mas sem o Denzel Washington. Tudo tem um motivo, um duplo sentido, sempre com o intuito de despertar e acelerar as suas capacidades sensoriais, com brinquedos “educativos” e que “estimulam” escolhidos a dedo pelos pais detentores do grande saber. Mas educar não é uma ciência exacta. Nessas sim, como o nome indica, há que seguir o procedimento exacto das coisas, juntar moléculas e átomos na correcta proporção, misturar tudo em relação causa-efeito, porque o efeito depende da exactidão do método. Na vida, felizmente, não é assim, e muito menos nas nossas relações com os outros – onde se inclui a educação dos nossos filhos.

Fico chocada com coisas que leio e oiço. Como uma colega hilariante a contar-me que a prenda de passagem que deu ao filho de 7 anos foi uma viagem a Paris….. “porque ele anda doido com o código Da Vinci e queria muito ir ao Louvre”. Eu repito. 7 anos. E queria ir ao Louvre. Mas alguém acredita nisto ou que isto faça bem a uma criança?? Qual é o problema da Eurodisney?? É bem mais saudável, aliás, é o sonho de qualquer adulto que se preze (admito)!

Neste regime de educação by the book, ao contrário do que pensamos, não fazemos dos nossos filhos melhores pessoas. Fazemos clones de pedagogia barata, personificações das nossas próprias expectativas, tornando-os intolerantes para com a diferença e incapazes de reagir à mínima adversidade. Os pais decidem como brincar, a que brincar e muitas vezes a que idade brincar ao quê, lutando muitas vezes contra a própria natureza “inconveniente” da criança.

Claro que não defendo a total anarquia educativa, e acho que a disciplina é dos valores mais importantes a transmitir, assim como o respeito e muitos outros. Mas prefiro ver pais que se moldam aos filhos do que filhos que se moldam aos pais. Os valores transmitem-se por “contaminação”, não se ensinam a nosso bel-prazer. Pais tolerantes criarão filhos tolerantes, assim como pais intransigentes criarão filhos intransigentes.

Porque, em última instância, é a vida que nos ensina. Ou não é verdade que todas nós, por exemplo, quando chegou a hora da nossa "primeira vez", nos soubemos desenvencilhar… e não foi preciso as nossas mães terem brincadeiras lúdicas sobre o assunto connosco ou sessões de treino, ou brinquedos da Chicco para nos estimular…..

Eu repito….

7 anos… E queria ir ao Louvre….

32 anos….. e eu queira ir à Disneyland….


Susana Sena Lopes 


 


 



publicado por Perplexo às 23:34
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