Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Terça-feira, 3 de Outubro de 2006
O Príncipe da Necrofilia - Parte 1,5 (Alex Gil)
 

De sapatos na mão, que isto de ir de sandálias de saltos altos no 106 rebenta com os mais nobres dos pés, o Príncipe estacou frente ao prédio. Era um daqueles condomínios exclusivistas, criados a pensar numa pequena elite pouca dada à socialização.


 


A seu lado, Branquinha coçava o nariz: «Então, jeitoso, que te parece?». Mas não obteve resposta. De boca aberta, vá-se lá saber se por causa da dor provocada pelas pisadelas nos calos junto às unhas vermelho sangue de boi se pelo espanto, o Príncipe fitava a fachada. Devia ter sido rosa, mas a criatividade dos moradores tinham-na transformado numa montra da mais refinada arte urbana.


 


«Muito janota, miúda», dignou-se, finalmente a retorquir a encantada personagem, lembrando-se de uma curte recente com um black, que lhe fizera lembrar tanto o Ben Harper como a Gloria Gaynor. «Comi uma chavala que desenhava estas coisas», confessou, apontando para um dos grafitti que faziam companhia a tags de elevado valor poético como “ZéZé fucks ‘em all” e “BuracaPower forever”.


 


Branquinha, com cada vez mais vontade da homónima não estava virada para as artes e muito menos para a abrangência inter-racial. «Ah, sim?» e entrou no prédio, dando um valente encontrão na porta. Ainda maravilhado com o cenário, o Príncipe seguiu-a.


 


Como que por milagre, que os contos de fadas não vivem sem eles, o elevador funcionava. E já que se adivinha uma cena de sexo, nada melhor que esta se passar em tão excitante cenário. Mas não sem antes…


 


«Vai uma linha?», sugeriu Branca de Neve, segurando a mão de P. (chamemos-lhe assim de forma a evitar repetições). Para que conste, era uma mão imaculada, daquelas que não sabiam o que era um detergente, com unhas de gel carmim que faziam sobressair o tom bronzeado dos dedos, em cujos nós – por um infeliz descuido – se notavam alguns pêlos. 

Apesar de faminto e excitado com os modos suburbanos do engate, o já não tão jovem príncipe hesitou. Pouco agradada com o impasse, ela serviu-se, mesmo ali. «Desculpa lá o mau jeito, mas quecas sem coca…»


 


É certo que ele já tinha ido a algumas festas “bem”, diga-se em abono da verdade, em que dera umas snifadelas, mas achara sempre que o seu charme era mais que suficiente para despertar os ímpetos mais selvagens. Tinha havido uma manequim de silicone que lhe saltara em cima nos lavabos, depois de um ataque de bulimia. E aquele empresário que lhe dera umas dicas da Bolsa em paga de outras acções que lhe tinham deixado os joelhos numa lástima – madlitas mini-saias! Mas isso são outros quinhentos, que era mais ou menos o que cobrava quando precisava de pagar a conta do cabeleireiro.


 


Olha-me esta armada em esquisita, tou mesmo a ver que tenho de me safar com os porcalhões, pensou enquanto observava a difícil conquista a deliciar-se com o manjar branco.


publicado por Perplexo às 20:38
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