Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Terça-feira, 24 de Outubro de 2006
O fim do acidente

“Carta de desamor” de Carla Bernardino


O céu acordou exactamente como no dia em que te vi discutir com o meu vizinho de cima enquanto estendia a roupa da ginástica que tinha deixado a lavar durante a noite. Ele tinha razão, vinha da direita. E a minha dor, resultante de um salto mal dado na aula de ginástica que tinha a capacidade de me fazer esquecer de tudo e todos, não diminuía mesmo depois de uma noite bem dormida.


Aliás, a minha dor agudizava-se à medida que a vossa discussão aumentava de volume e agressividade.


Sentei-me. Voltei a deitar-me. Não melhorou. A policia chegou ao mesmo tempo que a ambulância.


Até o enfermeiro se sentiu acidentado, coitado. “Que exagero que era a ambulância”, “que é um gasto do dinheiro que damos ao Estado completamente ridículo”, “que é por estas e por outras que o pais está como está”. Até que percebessem que a ambulância não era para o acidente, dava tempo para socorrer para aí uns três feridos de guerra ou fazer umas quantas reanimações.


Nunca tinha andado de maca. Não gostei, especialmente porque não fui eu que tranquei a porta. Quando a ambulância se fechou e começou a andar, já ouvia lá fora:”Assassino! Assassino!!” Sentia fome, ainda não tinha tomado o pequeno-almoço, logo não poderia estar morta. Conclui que moro numa zona estranha e que assim que pudesse deveria mudar de casa. Decidi pensar nisso depois. Talvez o tenha feito durante as 6 horas que estive à espera da minha vez nas urgências do Hospital, não me recordo. Mas recordo-me que me afligiu e muito!, durante esse tempo, a chuva dantesca que começou a cair assim que chegámos ao Hospital, e que eu tinha deixado a roupa estendida no arame. Que azar!


A minha vez chegou. “É melhor fazer um raio-x.” “Passemos à ressonância.” “Acha que ainda há tempo de fazer o T.A.C. antes da operação?”


OPERAÇÃO?OPERAÇÃO???? Que o telefone toque e seja do emprego a perguntar onde estou, que mais uma vez vou chegar atrasada, e que a desculpa da greve dos autocarros já não pega!


OPERAÇÃO??? “Sim, o quanto antes!” Aaaah… Posso ligar à minha mãe a dizer que afinal hoje não vou lá jantar?


Uau.. É bom estar deitada e ser empurrada a toda a velocidade por estes corredores fora. Faz-me lembrar quando era pequena e brincava com o meu irmão aos carrinhos de rolamentos.


A LUZ! Fogo! Ao menos desviem-me isso dos olhos, sim?! E um sr. veio calmamente falar comigo: “Então está bem disposta?” “Claro!Não poderia estar melhor!” “Mora onde?” “Nem me lembre..” “ Vou-lhe só dar aqui uma coisinha e o doutor ainda vem falar consigo..” Senti-me desfalecer ligeiramente. Mas quando o doutor chegou vestido todo de azul, apesar de ter aquele barrete ridículo, não havia duvidas! Eras tu!! O culpado!!!!! Adormeci. Passados 6 meses o meu ex-vizinho telefonou-me a pedir para ser testemunha de defesa. Hoje escrevo para te dizer que este acidente para mim acabou. O acidente que não sabias como realmente começou. O céu estava assim.



publicado por Perplexo às 13:53
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