Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006
Uma carta a ninguém e a quase todos

Carta de desamor de Luis Filipe Carvalho


Quase inconscientemente me deixei adormecer. Quase me deixei virar do avesso, até que me decidi escrever esta carta que será a primeira de mais nenhuma.


Vai, espero eu, pôr fim a uma infindável agonia que de tanto se nos apegar acaba por ser parte de nós e apelar a sentimentos de vingança e outras coisas más que, sub-repticiamente, vinham tomando conta do meu ser, diria que violentamente me foram possuindo.


Agora, sinto-me em paz comigo, sinto que foram ultrapassadas todas as questões que, por mesquinhas que eram, foram abandonadas à sua sorte. Como todas as coisas más e mesquinhas, precisam de um corpo e de uma mente que lhes dê guarida para se agarrarem à vida e se alimentarem de si próprios, sem esse corpo e essa mente morrem sós e abandonados.


Acabam definhando no deserto da indiferença de que sou, agora, possuído e em que a única referência a alguém que já foi um “ti”, um “tu”, um qualquer coisa mais me perpassou, em velocidade de anos luz, pela memória dos bons momentos, indo alojar-se no longínquo “para lá do esquecimento”. Local para onde remeto tudo o que é mau e no qual nem sequer me atrevo a vasculhar a mais pequena recordação.


Cansei-me da tua procura incessante de acesso ao “patamar da ignorância absoluta”. Aquele em que à força de se tentar atingir se acaba por esquecer o que de melhor a vida nos pode dar, e não é o poder nem sequer o dinheiro. Da tamanha e desmedida ambição restou um buraco negro no lugar do coração. Nada lá cabia, excepto o acumular de poder, riqueza e outras proezas, mais ou menos artificiais, com mais ou menos cambalhotas pelo meio.


Estavas cada vez mais só, sem o notares. Afastavas todos os que ainda pensavam trazer-te à luz da verdadeira amizade, insultavas e espezinhavas, não sentindo que, a cada dia que passava, mais te afastavas de todos e de tudo. Estavas só com a cegueira da tua ambição e tinhas tudo o que querias. Na verdade não tinhas nada, estavas só, com o efémero o poder que ambicionaste e com um resto de vida sem sentido.


Para mim chega. Acabou, vou-me embora e não volto mais.


Quero voltar a ser e a sentir. Quero olhar para o longínquo, ver o mar, sentir as sensações boas da vida, verter uma lágrima pelo canto do olho, arrepiar-me e ter até pele de galinha nas situações mais sentidas. Quero ser eu. O humano sensível que sempre fui.


Desisti de ser o preocupado da vida, deixei de me importar com ameaças, enxovalhos e outros que tais. Agradeço a forma como, apesar de tudo, me mostraste o verdadeiro caminho. Obrigado.


Sou eu em paz, interior e envolvente, muita paz e com pena, muita pena que um dia, por um qualquer acaso da vida, te revejas num espelho que de tão pouco uso, se esbateu no seu brilho e só devolve uma imagem baça e difusa… a tua imagem. Adeus.



publicado por Perplexo às 11:54
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