Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Sábado, 4 de Novembro de 2006
Abismo

Carta de desamor de Ricardo Henriques


Existe um abismo entre nós. Esta conclusão radiante não me permite esboçar o mínimo orgulho porque infelizmente sei que a tiraste muito antes de mim. A boa notícia é que podes continuar a vangloriar-te dessa tua capacidade tão inata como irritante para o pensamento racional. A má notícia é que a minha natureza impulsiva conseguiu pôr-me finalmente um passo à tua frente. Considera esta carta a tua ablação cirúrgica, a trepanação que a nossa relação exigia. Sim, estou a extrair-te de forma terminal da minha vida. Olhando para trás é tudo tão claro como estuque tapa buracos. Eu gosto de arriscar, tu pensas sempre nos prós e contras, nos contras e prós. Eu imagino constantemente tudo aquilo que poderíamos fazer juntos, tu contentas-te em repetir os mesmo gestos de todos os dias. Tu és de esquerda, eu sou de direita. Eu penso em imagens, tu respondes-me com centopeias de palavras. Eu perco-me, tu encontras-te. Curiosamente sou eu, o não linear, o subjectivo, o emocional que consegue ter a capacidade de compor os caracteres do adeus derradeiro. Quem é que é dominante agora? Se calhar apanhei essa tua doença chamada “lógica” ou talvez as mais recentes descobertas da neurociência sobre a inteligência emocional estejam certas: sem emoções ninguém consegue ser objectivo. Parece que os nosso encontros na zona pré-frontal deixaram sequelas, especialmente para o teu lado. Um tal de António Damásio descobriu que a existência de traumas nesta área levam a que se fique preso a estratégias que não funcionam. É este o teu diagnóstico: sem mim não és ninguém. Já sei o que é que vais dizer, lá estás tu com ideias e a dar a volta à lógica das coisas, não seria melhor fazeres um TAC? Não, não é uma ressonância que nos vai salvar, nós somos a personificação da dissonância. O nosso problema é estruturante, não podes negá-lo. Vais ver que o facto de sermos os dois insensíveis à dor vai ajudar no processo. E claro que a tua “competência comunicativa” vai prevalecer na tua visão objectiva dos factos. Retiro-te oficialmente o título de cara-metade e também de meu braço direito, quanto a mim, abstenho-me de controlar todo o teu lado esquerdo. Como é que vamos conseguir viver? O que será da tua “coordenação da motricidade”? Recorre à inteligência artificial se for preciso, daqui para a frente os teus movimentos são isso mesmo: teus. Desde que comecei a fantasiar com esta lobotomia já sinto a brisa de uma oxigenação que de certeza me vai abrir muitas portas da percepção. Existe um claro abismo entre nós, mas tu, na tua infinita e contorcida sabedoria chamar-lhe-ias uma fissura inter-hemisférica. Sabes o que te digo? Faz um brainstorm à porta fechada e mete a tua sabedoria no cerebelo.



publicado por Perplexo às 09:41
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