Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Domingo, 12 de Novembro de 2006
Les Uns et les Autres. II - A Voz.

Chegaram sem mesa marcada. O burburinho da sala contradizia a promessa do nome e do espaço,  com decoração hesitante entre o minimalismo ocidental e o despojamento do Oriente. Um empregado apressou-se a arrumá-los numa mesa central. Os empregados,europeus,o ar, pastoso, a sala vermelhusca e a luz difusa,tornaram-se irrelevantes.


Ela descartou-se da chatice de escolher a carta. Pouco lhe interessava a comida. Fora por ele, para ouvi-lo, que aceitara o convite, não para comer. Era-lhe indiferente o que viesse. Considerava-se uma boa "gourmet" - tinha o prazer da mesa, da tertúlia à mesa, das refeições arrastadas pela tarde ou pela noite, em amena cavaqueira com os amigos ou a família, dos "eatings and drinkings" expressão recorrente de noitadas em gargalhada geral. Mas hoje era diferente. Tinha todos os sentidos concentrados num único objectivo. Conversaram, falaram de tudo e de pequenos  nadas, saltaram de tema em tema sem se comprometerem muito com ideias, nem ideologias, e menos ainda ideais. Passaram em revista o passado, deram uma olhadela ao presente e marimbaram-se para o futuro (isso o que é? sempre um caminho para a morte, percorrido dia-a-dia, feito do presente, logo, p'ra  quê falar do que está dado à partida?). Ele, cheio de vícios da  pósmodernidade, a actualidade, o abismo internacional, ela, aparentando frieza, uma falsa ataraxia, nalgumas questões mais entusiasmada - as historietas dele e a História que ia entrelaçando ao longo da noite. E riram um do outro, um com o outro,dos outros. 


Beberam como velhos compinchas, "compagnons de route", sem moto nem interail partilhado, cúmplices de há muito... Ele punha-se todo em tudo o que dizia. Falava como ria, como via o mundo, as pessoas, as coisas. Com emoção, com paixão. Expunha-se. Inquieto, irrequieto e tempestuoso - o que tinha por diante era um vulcão. A lava que lhe corria dentro serenava por breves instantes, para logo se agitar de novo. "Talvez por isso veste sempre escuro". Somos a cor que escolhemos? Eu escolho-me em branco. E em azul. Luz e água, a luz da água. Ele, o negro, o cinza lavar, a terra. Prometida, ou ainda não. A escolha define? Definimo-nos na escolha? (a pensar mais tarde, que agora estou a pairar, a voz dele leva-me a rotas desconhecidas, à descorporização, à ausência de autoconsciência. Agora vou por onde me leva a voz, sou a voz que oiço, não estou aqui, não sou eu, mas uns acordes sincopados, o D. João III está a distrair a minha concentração, que chato, e eu não quero sair da espiral de abstracção que me faz ar, não tenho peso nem massa, sou uma voz que não é a minha, mas não me importa,  é assim que me quero, gosto mais desta).


Regressou.Bem modulada, articulada, a voz saía-lhe das entranhas. Invulgar, incomum, regalo da natureza, prendia-a mais do que a própria palavra, do que o discurso dele. Este tornara-se secundário enquanto ia registando as chispas, a luz, o contraste do olhar radiante, das rápidas explosões de alegria, com as trevas do sedimento interior. Insultou-se. "Bruxa! Que olhar era este o dela, que lhe devolvia a alma e não lhe exibia a matéria? Que olhos tenho eu, que me revelam o oculto e me distraem do óbvio?" Se lhe perguntassem como é ele, não saberia descrevê-lo, a não ser pela luz e pelo negrume. E pela voz irrepetível.


                                                                  * * * * * *


Saíram quando ele já  estava de novo agitado, impaciente. Fora, dividiram a paixão xenófoba pelo clima, inspiraram a noite cálida, caminharam sinuosamente pela noite urbana, ele, contando-lhe a História da cidade. Acompanharam-se em direcção ao carro que os esperava. Despediram-se com dois beijos rápidos, ele, roçando-lhe a linha da cintura com as manápulas calorosas, ela, sorrindo, agradecida. Entrou no carro.A cratera fechou-se. Ele virou costas e encaminhou-se para casa.


Tinham ludibriado todos os "clichés".


Miriam  


                                                              


 


 



publicado por Perplexo às 17:00
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