Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Terça-feira, 14 de Novembro de 2006
Odji d'Mar

- Achas que dentro de vinte anos 'inda estamos assim?


- Acho! - A resposta viera rápida.


Mae colou-lhe um beijo à nuca e afundou o olhar no rebocador, enquanto se alapava ao corpo dele.


De dentro do mar, a proa do velho barco observava-os com altivez.Parecia que tinha olhos. Há três dias que lhes seguia os movimentos, como um cão deitado vigiaria o dono. Enconchando-se na baía, um véu mar-céu brumeava o horizonte. O morro era agora um farto seio rendilhado, rasgando a névoa fina.


Não tivera nunca uma mulher na sua vida - pensou DC, rosto enterrado na areia. Mas, afinal, o que eram todas as outras que lhe atravessavam a vida? O que tinham sido? Perdera já a conta a uma míriade de encontros-desencontros que llhe pontilhavam o caminho. Retinha alguns nomes. Enganava-se. Trocava-os quando tentava emoldurá-los num rosto, ou num corpo que a memória teimava em reter.


Tempestades de desejo, eram assim mesmo: flashes de maior ou menor alcance, disparados a intervalos irregulares do sonho. Num deles encontrara a matriz pedida-perdida. Fizeram greves, fizeram juras. Fizeram amor e fizeram filhos. Fizeram milhares de quilómetros - em viagem, em sonho, em conversa. Em casa.


Depois, - lembrava-se agora que há sempre um depois - depois, o maior encontro, o mais longo desencontro.


- Queres ir comigo para o Brasil?


- Para o Brasil, ou ao Brasil?


- Dentro de dois anos, saio daqui. Estou farto disto tudo!


- Há meia hora atrás, o Brasil era os Estados Unidos...- respondeu, irónica.


- Brasil ou Estados Unidos, não interessa.Queres ir, ou não?


- Para partir, conta sempre comigo. Estou sempre pronta p'ra partir. O destino não importa. O que interessa mesmo é partir... - nisso, era bem portuguesa. Não podia negá-lo,apesar do nome que lhe coube na rifa. 


                                                         * * *


Pelos dez anos de idade, lera um livro que a tinha marcado, "O Apelo da Selva". Cravando o olhar no azul mais distante, perguntava-se se existiria um apelo do mar...


- Agora, apetecia-me ter um barquito, meter-me nele e ir por aí, água dentro.Sem destino certo, a cortar este véu. E quando chegasse ao rebocador, virava-me para terra, para vê-la desde esse além.


Talvez que, assim, entendesse o seu país, pensou.


Olhando a água, sentia-se flutuar. Apetecia-lhe flutuar. Desejava flutuá-la.Como uma gaivota.


E levantou vôo. DC não voltou a vê-la.


                                                           * * *


Vogava com as ondas, pernas estendidas, olhos fechados. Da praia chegava-lhe o chilreio dos pássaros, os gritos dos miúdos e o gargarejo da água, por entre o cascalho. Aterrou-lhe uma pedra-lume nos braços abertos em cruz. Abriu os olhos. Embarcou no abismo azul das íris que a fitavam.


 


Miriam


 


 



publicado por Perplexo às 22:33
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