Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Sábado, 16 de Dezembro de 2006
O livro que nunca li

por Sérgio Figueira


Olho-me ao espelho e vejo-te do outro lado. És a personagem que eu queria ser e não consigo. Fizeste todas as viagens que eu planeei e nunca fiz. Saíste todas as noites durante a minha juventude enquanto eu ficava em casa com medo de enfrentar o mundo. Tens a coragem que eu queria ter e esbanjas o charme que eu jamais possuí. Tens os amigos que eu invejo e passeias a tua figura de “dandy” do século XXI com um toque de James Bond versão Casino Royale, nesse belo descapotável com que sempre sonhei. Nunca te faltou o dinheiro para todos os teus luxos e devaneios e ainda por cima sem precisares de trabalhar porque ninguém teve tanta sorte como tu tens nos negócios, como se tivesses sido abençoado pelo cabrão do Rei Midas.


Por ti passaram toda as mulheres que eu queria ter. Lindas, sedutoras, altas, esguias, de cabeleiras fartas e peitos de Pamela Anderson antes de retirar o silicone. Foram todas tuas, às vezes aos pares, algumas vezes até mais na tua cama, numa orgia que só me acontece em sonhos e dos quais acordo sempre na melhor parte.


Pára de me contemplar desse lado do espelho com ar de piedade e sorriso cínico, como quem quer dar uma esmola, ou, pior ainda, ser solidário. Não quero a tua pena e muito menos a tua solidariedade versão Bob Geldof dos abandonados da sorte.


Sou um filho da puta de um desgraçado a quem a vida virou as costas e ninguém quer saber. E ainda por cima começo a gostar de mim assim. Acho-me graça no meio de tanta miséria. Imagino-me a comandar um exército de vencidos da vida, pronto a repor a justiça no mundo e a retirar os privilégios aos afortunados da existência como tu. Idealizo tácticas para a minha vingança e visualizo a tua desgraça. Vejo-te gordo e sem esses músculos de modelo que humedecem os sonhos de teenagers histéricas. Ficaste careca e perdeste esse sorriso milionário de anúncio de revistas caras. E principalmente, principalmente meu caro, para além de te terem tirado o belo carro com que te passeavas nas avenidas da vida, perdeste o teu atributo de macho, aquilo que te deu maior prazer e fama, ficaste sem o tesão que era a tua coroa de glória e atributo de conquistas sem fim!


Sinto-me vingado e ainda assim sabe-me a pouco. Quero ver-te exposto num daqueles “reality shows” em que se amesquinham os concorrentes em nome da curiosidade e interesse das audiências. Melhor ainda, concretizo um dos meus outros sonhos recorrentes, em que és preso e mandado para uma prisão da pior espécie de um país do terceiro mundo, em que todas as noites do resto da tua existência serás violado por um bando de prisioneiros ansiosos por carne fresca. Ainda ris? Queres pedir-me perdão? Lamento é tarde de mais.


Vou escrever esse livro que nunca li. Para poder fazer a minha moral da história. Que perdurará “per saecula saeculorum”…



publicado por Perplexo às 11:25
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