Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007
Seis Anos depois

O Sol já estava a poente quando um carro verde escuro, deixando o cemitério atravessou a povoação procurando avistar a grande amoreira preta. A viatura subiu a ladeira vagarosamente até chegar ao terreiro, onde se imobilizou. A porta do lado do pendura abriu-se de imediato, e logo após a saída arrebatada de um cão cinzento a atirar para o preto, que correu de pronto na direcção de uma casota quase oculta no meio de tanto mato, saiu uma jovem senhora vestida de negro. Era Marta Algor.


As outras portas também se foram abrindo. O condutor era o Marçal Gacho. Do banco detrás saíram a Isaura Estudiosa com um menino que teria decerto uns cinco seis anos, que logo logo, e ao sentir chão firme debaixo dos pezitos, correu na mecha atrás do cão que, agora sabemos ser o Achado. A Isaura, outra vez viúva, com toda a preocupação que podemos calcular, lá corria atrás do menino chamando pelo seu nome.


Enquanto Marçal fechava as portas da viatura, Marta contemplando a olaria ao fundo - quase toda ela invadida por ervas - dirigia-se calmamente a casa.


Há seis anos tinham deixado tudo aquilo. Era a primeira vez que ali voltava desde então. Pelo chão viam-se os restos dos bonecos, ali colocados na manhã da partida, com o propósito de guardarem todo aquilo.


A filha do oleiro, acabado de enterrar, abriu a porta e entrou na cozinha. A grande mesa lá estava, local de tantos encontros e felizes partilhas. Marta por momentos sentiu a presença do pai à cabeceira da mesa. A comoção apanhou-a. Sentiu as pernas fracas. Sentou-se no lugar tantas vezes ocupado pela mãe e depois por ela, e escondendo o rosto entre as mãos começou a chorar. Marçal ia a entrar, mas ao ver a mulher assim e apesar de querer muito abraça-la, achou por bem deixá-la, por agora, sozinha. Foi ao encontro de Isaura, Achado e Cipriano Júnior. Passado estava o frenesim do corre-corre, estavam, os três, tranquilamente sentados no chão. Ao chegar junto deles Marçal deparou-se com o filho com as mãos todas sujas a brincar com terra barrenta, sob o olhar fascinado de Isaura e Achado. Da forma mais discreta conseguida sentou-se junto a eles.


E ali ficaram, aguardando a Marta, debaixo da grande amoreira que, apesar de mais velha e dos progressos da dita civilização ali continuava, teimosamente de pé.


 


Baseado em: A Caverna de José Saramago



publicado por Perplexo às 12:37
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