Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Domingo, 10 de Junho de 2007
the passion of lovers is for death

The passion of lovers is for death, said she (the passion of lovers, bauhaus)



(…) A miúda era a estrela da disco underground ali para os lados do Cais do Sodré. E era a minha miúda. Era com ela que, como gostava de dizer aos amigos, incendiava as pistas.


Ainda a oiço cantarolar now come hold my hand, no bad vibe hearts, hold my hand you know, this journey could be long, em forma de promessa já tantas e tantas vezes cumprida. Ainda lhe sinto as pernas entrelaçadas na minha cintura, num salto feito passo de dança, que me deixava fora de mim. Ainda lhe escuto o coração a bater como louco varrido ao som da minha voz de cana rachada que, em jeito de suspiro lhe cantava ao ouvido: all i need from you is all i see.


Assim vistas as coisas, ninguém diria que a minha miúda era tímida, tão tímida, quase indefesa perante os males do mundo. E como gostava de a proteger dos seus monstros imaginários. Tantas eram as alegorias de medo que esboçava com aquele sorriso que nunca deixava ver o aparelho que lhe endireitava os dentes. Mas bastava a música começar, dois whiskies sem gelo de penalty e uns tantos cigarros sem filtro para que a minha miúda esquecesse os receios todos.


E eu acompanhava-a, sem pensar duas vezes. Era a minha forma de dizer amar-te-ei sempre, de a tentar convencer que os fantasmas não existiam, que nada de mal lhe poderia acontecer. Não cheguei a perceber se acreditava realmente em mim. A última imagem que guardo dela é de um sorriso mais largo que o habitual, seguido de uma expressão serena que nunca lhe adivinhara antes.


Foi nessa noite que deixei de dançar. A perna coxa não me permite tais devaneios. A minha miúda não teve a mesma sorte, contaram-me, assim que acordei do coma sem a ver ali à cabeceira da cama. Os amigos, esses escusaram-se a entender as minhas explicações e nunca me perdoaram o ter acedido ao seu pedido para beber mais um gole, para acelerar, para aumentar o volume dos Bauhaus no leitor de CD do carro.


 


 





 



publicado por Perplexo às 16:36
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