Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Terça-feira, 3 de Julho de 2007
S/T

"Não há impossíveis", disse o poeta num fim de tarde, cravando um olhar carregado de palavras nos olhos da rapariga. Ela fitou-o surpreendida, com o ar de dúvida de quem duvida, mas que quer acreditar. Que precisa de acreditar. "Talvez", murmurou em tom inaudível.


Subiram. O ascensor era uma ampulheta:  viajaram pela areia sem dar-se conta da vertigem.  Quando acordaram do sonho repentino, tinham voltado ao ponto de partida. Corrigiram a rota e atracaram no pico do edifício, extasiados com a paisagem da cidade a cor a luz o rio, as telhas rubras resvalando em cascata pela encosta do castelo, o verde vibrante do arvoredo, o azul impensável das águas. Uma gaivota riscou o céu, asas apontando a direcção dum telhado sobre eles: fado fatum fatalidade, as cordas duma guitarra mal gemida a trinar em pretéritos imperfeitos, conjugados em improváveis descobrimentos...


A rapariga invejou a  liberdade da gaivota. Invejou a liberdade do poeta. Seguiu a gaivota com o olhar. Poisou-o no olhar líquido do poeta. Desviou-o para o  casario à sua frente e pensou que as janelas das casas "são os olhos da cidade". Que a cidade tinha mil olhos ou mais, mas cegos cegos demais para ver-se cega e vagabunda, perdida de si mesma em todas as partidas sem regresso.  


Pegaram nos copos, brindaram não-importa-a-quê e a rapariga cansada do fatum, abriu os braços e arriscou um vôo até à praia dos possíveis. O poeta?


- Tornou-se um pintor de essências em azul.


 


Miriam



publicado por Perplexo às 18:36
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