Forum dos alunos do Curso de Escrita Criativa do El Corte Inglés
Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
Algodão doce

(Excerto de ainda nada...)




As luvas suadas escorregavam nas bolhas de plástico pretas, que encapuçavam as manetes diluídas pelas brumas de vapor bufado em húmidos ritmos; e o avental, lavado pelo suor de uma máquina de aspecto tumular, escondia uma porção considerável de um corpo atarefado. A face escorrida, de meia vida sobrevivida, emoldurava uns óculos de aviador que protegiam os olhos carvão, fonte de alimento da agitação daquela cave sombria. O corpo inerte, deitado na maca por detrás do obreiro, era o de uma jovem campina cujo nome, inscrito no obituário alapado à tampa profanada, havia sido destituído de apelido, pela indevida brutalidade e má qualidade da madeira do cubículo. Pela segunda vez, a jovem havia sido cruelmente arrancada dos progenitores. A data do falecimento não retrocedia mais de dois dias e o motivo da morte não era original, mas sim passional. E nem o resultado do excesso de “amor” merecia mais do que as costas do nosso personagem, que, entretanto, abria a tampa côncava da superfície metálica da máquina e a deixava descansar, enquanto as fiadas de vapor assentavam, dissolvendo-se no soalho gélido. Finalmente, o homem virou-se e começou a despir a mulher aos soluços. As marcas dos dedos do apaixonado lacravam o pescoço esguio e a pele sardenta, sulcada pelo campo, era agora descoberta, pelo outro, de forma abrupta. A pressão descontínua da mão enluvada contra as costas pálidas, como forma a facilitar o desnudar das roupas, desapropriadas à imagem humilde, fez estremecer os seios firmes. Suspendeu o processo momentaneamente. Os olhos fixaram os mamilos. Pareciam entumecidos, obliterando na lascívia da vida a morte ignorada. Não conteve o espasmo, em forma de suspiro. O corpo maduro engrossou, ostentando poros, que dilatados, apuravam a atenção aos sentidos, e o desejo lembrou-lhe que era humano. Pousou o corpo, repondo a sua posição original. Retirou a luva direita e percorreu o seio direito com dois dedos. Sentiu-o vigoroso, qual borracha que readquire fácil e rapidamente a sua forma original. A feminilidade vincava as cuecas de algodão, calcadas pela mão masculina. Puxou-as lentamente, libertando-as das ancas ossudas, e o tufo de pelos arruivados pela luz quente, desabrochou. As coxas abundantes eram percorridas pela pressão cortante do elástico das cuecas. Nua, exposta à sua vergonha ausente, envergonhou o homem que lhe pegou ao colo e a colocou dentro da máquina.


O vapor reanimou, inundou a cave, e a bruma artificial ocultou os pensamentos sórdidos, que se desvaneceram definitivamente quando um balde de madeira, transbordando calda de açúcar, foi erguido pelo homem. Ao lado desse balde, bambus tombaram, desenhando no chão um mikado intencional. A temperatura do vaso metálico, para onde a calda fora vertida, aumentava de forma proporcional ao odor enjoativo. Um punhado de tubos translúcidos aguardava que a manete correcta fosse accionada no momento devido, para servirem de veículo à alma aprisionada, absolvendo-a da carne transpirada, sugando-a e cuspindo-a na lava doce. A redenção adocicada era mexida e remexida com uma colher de pau industrial e permanecia no vaso metálico, que entretanto girava continuamente sobre o seu próprio eixo, durante sete dias. Ao oitavo dia, era ouvir os pregões dos vendedores:


 


“Algodão doce...Algodão docinho”...


 


E, de facto, não se ouvira falar de algodão doce tão energético, de sabor tão refinado e de odor tão plácido e puro. Mesmo quem não gostasse de doces em geral ou quem gostasse, mas não particularmente de algodão doce, rendia-se aos prazeres da gula desenfreada.



publicado por Perplexo às 12:14
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